Na JENPEX, sala sensorial convida participantes a sentir o mundo pelos olhos – e pelos sentidos – das pessoas autistas

Imagine entrar em um ambiente onde tudo é intenso demais: o som, o toque, o movimento. Foi essa vivência — […]

Imagine entrar em um ambiente onde tudo é intenso demais: o som, o toque, o movimento. Foi essa vivência — ao mesmo tempo desafiadora e transformadora — que a sala sensorial proporcionou aos participantes da JENPEX na manhã deste sábado (29/11) , no IFMT Campus Confresa.

Logo na entrada, os visitantes eram vendados, guiados apenas pelos próprios sentidos. Do lado de dentro, um ambiente propositalmente caótico: buzinas, apitos, aspirador de pó, pancadas em latas. No chão, areia e pedras criavam instabilidade, enquanto uma mesa repleta de materiais — folhas secas, arroz, sal, slime, gelatina, pedras — convidava o tato a trabalhar sob tensão.

A combinação entre sons altos, texturas inesperadas e ausência da visão gerou reações diversas: angústia, repulsa, desorientação, incômodo, medo. Em muitos casos, sentimentos que participantes disseram nunca ter experimentado dessa forma.

Segundo o psicólogo da instituição, Orivaldo Salles, a proposta se inspira em uma experiência desenvolvida pela Universidade Federal de Santa Catarina e busca não simular, mas aproximar o público da realidade sensorial de uma pessoa autista diante de estímulos intensos do cotidiano.

 

“Se eu tivesse que voltar de novo… não voltaria”

Brenda, estudante do 1º ano Técnico em Agropecuária

Entre os participantes, a estudante Brenda, do primeiro ano, descreveu sua experiência com sinceridade:

“Eu me senti um pouco desconfortável, porque o barulho era muito alto — muito alto mesmo.
Também senti uma sensação estranha na mão, por causa do contato, das texturas…
Mas achei uma experiência muito legal. Só que, se eu tivesse que voltar aqui de novo daqui a alguns dias, eu não viria.”

O relato ecoou entre outros estudantes, que também apontaram o quanto a privação visual, somada ao excesso de estímulos, os fez sentir vulneráveis.

 

A visão da especialista: “Trouxemos o caos para que as pessoas compreendam a intensidade com que nossos filhos percebem o mundo”

Yeda Carolina, médica especialista em transtornos do neurodesenvolvimento

Responsável por conduzir a experiência ao lado da equipe, a médica Yêda Karolina Rosa explicou que a proposta fugiu da ideia usual de sala sensorial — tradicionalmente um espaço de conforto e regulação para crianças autistas.

“Hoje trouxemos o caos, por assim dizer, para que as pessoas compreendam a intensidade com que nossos filhos — porque, antes de médica, eu sou mãe atípica — percebem o mundo.”

“Eles têm uma percepção muito mais intensa do que é tátil, olfativo e auditivo. Queríamos que as pessoas percebessem o que uma criança autista pode viver em meio ao caos de uma escola, de uma rua, de um ambiente barulhento.”

Para Yeda, a experiência tem um propósito maior:

“Queremos despertar mais empatia, acolhimento e amor — especialmente nas pequenas atitudes do dia a dia.”

 

“Eles sentem tudo com muita intensidade”

Ellen, presidente da Associação de Pais e Amigos de Autistas

A mãe atípica e presidente da Associação de Pais e Amigos de Autistas, Ellen, reforçou o impacto social e pedagógico da vivência:

“Às vezes, algo que não nos incomoda, incomoda muito a eles. E eles sentem tudo com muita intensidade. A experiência foi pensada para conscientizar — pelos nossos filhos e pelos filhos dos outros também.”

Ela destacou que a atuação coletiva por meio da associação tem dado frutos:

“Temos tido um resultado positivo. Muitas pessoas têm sido acolhidas e têm sido ouvidas.
O que está acontecendo aqui hoje já é uma mudança dentro da escola.
Acredito que ninguém será o mesmo depois dessa experiência. As pessoas vão olhar com mais carinho para uma pessoa autista, para um colega de sala.”

E reforçou a importância para futuros docentes:

“Muita gente aqui está estudando para ser professor. Essa vivência vai ajudar muito dentro da sala de aula.”

 

Quando sentir transforma

A sala sensorial da JENPEX não foi apenas uma atividade vivencial. Foi um convite — firme, sensível e inesquecível — para olhar o mundo sob outra perspectiva. Para muitos, foi a primeira vez em que compreenderam, ainda que por alguns minutos, os desafios sensoriais enfrentados diariamente por pessoas autistas. Um exercício de empatia, um despertar. Um chamado para construir espaços mais acolhedores, atentos e verdadeiramente inclusivos.

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